Frio
Você me deixou para congelar
O que carregam as partículas dessa brisa fria sobre o meu rosto?
Além do arrepio que invade minha pele, além da vermelhidão que irradia nas extremidades do meu rosto, que segredos esse gélido vento detém?
Sim, eu ando pela rua e sinto o açoite do vento gelado sobre a minha face, sobre o meu corpo.
E o sinto transcender, além da pele.
Eu, subitamente, lembro de você. Lembro do frio que ser invisível a você me causou, lembro do meu congelamento iminente frente à sua repulsa.
Não é uma metáfora: você personificou o frio. É quase como se ele e você fossem um só ser, indissociável. Por sua causa, não sinto somente o frio; ele também vem acompanhado de frieza, e isso muda tudo.
Sim, o frio me assola. O frio da indiferença, do silêncio e, principalmente, da apatia.
Eu me sinto um estranho novamente.
É como se eu estivesse lá, outra vez, nas ruas daquela cidade tomada pela neve, quase congelando.
Naquele dia, somente o frio foi minha testemunha.
Que maldição! Eu consigo sentir o desejo, a fúria e o abandono; a confusão, a rejeição e a solidão. O frio aflora tudo isso, como se tivesse memória.
Estou sozinho outra vez, embora eu possa sentir a presença do frio invasor me consumir: É como um lembrete involuntário de que sempre há algo a mais do que posso perceber, e, só agora, sinto o que há além do frio.
Eu quase me queimei pelo que achei ser chama, mas não passava de gelo profuso.
Que ironia a sua: ser oceano na promessa e geleira na presença.
Embora seu rosto e pele existam como fragmentos desordenados em minha mente, quando me encontro com o frio cotidiano, ainda te reconheço. Mesmo metamorfo, não palpável, inalcançável e efêmero, como você sempre foi.
Acho que o que me resta é me abrigar em meu próprio calor.
Eu sei: estou condenado a sentir cada frieza desses frios.
Do lado de fora.
No frio.
Para congelar.



"Eu quase me queimei pelo que achei ser chama, mas não passava de gelo profuso." Isso aqui é arte, meus Caros!