Quase eu
Notas sobre o transbordar e a agonia de nunca ser por inteiro
Queria ser insensível a mim.
Queria prescindir de mim, viver a vida em terceira pessoa, talvez.
Espreitar como quem observa de fora, mas não corre o risco de ser.
Porque eu me arrisco demais.
É que às vezes o mundo parece raso demais e eu me machuco tentando nadar.
Queria aniquilar a palavra que pulsa em mim e gozar do silêncio do nada.
Da ausência, da falta, da inexistência.
Será que para viver eu tenho que sacrificar a mim?
Será que o meu destino é simplesmente o de nunca ser?
Afinal, em quem me torno quando sou mais falta do que presença?
Quem sou eu quando sou pela metade?
E como ser metade se eu nunca soube o que é ser? Eu só fui sendo.
Eu sou sempre demais, exagero, inundação, abundância e, às vezes, esse excesso me engole… ou sou em quem se põe a ser engolido. Não sei.
Sou expansivo demais, não consigo caber. Às vezes transbordo até em mim.
Sou aquele tsunami que destrói cada ponto de uma cidade e também sou a cidade destruída.
Como eu poderia explicar que meu maior medo é o de simplesmente ser?
Parece que eu sempre estou a dois ou três passos à frente, tirando as pedras de um caminho que ninguém pediu.
Eu tenho a urgência de sentir, e por isso, estou sempre correndo, mesmo sem saber exatamente para onde.
Sou barulhento. Sou som no meio do silêncio, sou certeza no meio das dúvidas.
Sou fogo na chuva. Sou vermelho no azul, mas ninguém me deixa avermelhar.
Tenho que temperar a água, nunca fervo por completo, nunca chego a transbordar.
Eu sou uma declaração quase feita, um círculo quase perfeito, um copo metade cheio.
Sou o pré-clímax, mas nunca desfecho.
Mesmo queimando por dentro, não há chamas externas.
Talvez essa seja minha maldição: nunca consumar minha queima.


A forma que eu sou apaixonada pela sua escrita é diferente
Uaaau 🫨